No meu “artigo trágico” sobre o flme Ilha do Medo, de Martin Scorsese, o Aron deixou um comentário. Em outro espaço, no blog do Lisandro, eu sugeri que ele transformasse esse comentário em um texto, a fim de publicarmos aqui no blog.
Aron, que foi meu aluno na graduação em jornalismo da Universidade Federal de Goiás, topou a ideia e escreveu o texto abaixo. Mais que uma abordagem sobre o filme de Scorsese, trata-se de um pensamento sobre a Hollywood contemporânea, com sua dependência de imagens impactantes e a depreciação das grandes narrativas, um dos efeitos desse novo regime da visualidade.
Com isso, Aron acaba inaugurando as contribuições dos leitores, um novo espaço aqui no blog, que tem sido pouco atualizado diante de outras atividades que preciso priorizar. Quem desejar publicar um texto no Vistos e Escritos, e ele se adequar aos propósitos do blog, será sempre bem-vindo. Como de praxe, o debate fica lançado na caixa de comentários!

A Hollywood dos últimos anos invariavelmente apela para a tecnologia, ou melhor, a técnica, para angariar público. Técnica é habilidade, técnica é práxis refinada pela experiência compreendida e repensada ao ponto de se atingir a eficiência e daí abrir novas possibilidades. Com a técnica refinamos as imagens, conseguimos melhores captações audiovisuais, atingimos uma agilidade imponente, e temos o cinema 3D. Assim como um dia a mágica fascinou a sociedade européia crente no racionalismo empirista (afinal, mágica se trata exatamente da técnica na sua forma mais elegante), hoje o sublime movimento de luzes e cores em vastas possibilidades põe as platéias do cinema a babar. Assim, elas seguem crentes no mundo palmilhado e medido pela ciência.
Quanto mais recente, mais agudo é o caso. Do espetáculo de explosões de Apocalypse Now (tão atacado por Jean Baudrillard) ao espetáculo de (neon?) de Avatar, a escola cinematográfica estadunidense tem formado gerações no seu cinema-show-de-luzes onde, infelizmente, a narrativa não é a prioridade. Talvez o exemplo mais notável esteja na reprodução dessa tendência percebida nos jogos eletrônicos, cada vez mais simplórios e repetitivos, ao mesmo tempo em que mais bonitos e fotorrealistas. Não é preciso escrever um tratado sobre cinema para entrar em comum acordo que uma de suas características essenciais, principalmente olhando a sua história, é o discurso – o enredo é o esqueleto de um filme cinematográfico. Desde que se começou a narrar com filmes, todas as técnicas empregadas o foram em detrimento da narrativa; mas Hollywood hoje parece mais povoada de efeitos especiais que de enredos.
Claro que efeitos também têm história pra contar, são parte do enredo, e claro que Hollywood nunca foi a primazia da narrativa: é cultura pop, feita para agradar a todos. Só não podemos – jamais – perder de vista a crítica: podemos e queremos algo melhor. E é inegável que mesmo o melodrama hollywoodiano, duramente criticado, anda cedendo ao puro show-de-luzes; não é mais questão de roteiros ingênuos, mas da própria falta deles. É o cinema se rendendo à mudez do auto-regozijo, ou mesmo escolhendo fazer um beat-box em vez de conversar com o espectador (só pra constar: nada contra o beat-box, foi uma metáfora).
Ilha do Medo representa o meu medo de uma resposta aleijada a esse quadro: nele se percebe a tentativa de enredo envolvente, mas o que se obtém é um desastre. Apesar de a média hollywoodiana estar em queda, ainda temos alguns diretores lançando filmes que têm algo a dizer (no momento me lembro de Um Homem Sério, dos irmãos Coen); o que não é o caso aqui, por mais que Ilha do Medo não seja um caso particular – em cada nova temporada de filmes sempre aparece algum que naufraga no seu próprio lago. Ilha do Medo não se apóia na técnica, não recorre aos estratagemas fabulosos, mas ainda assim caduca como se não houvesse saída do labirinto em que os roteiristas se meteram atrás de bons enredos.
Scorsese inicia Ilha do Medo remetendo aos clássicos noir, mas a qualidade dessa introdução não resiste quando são desmanchadas as possibilidades mais interessantes, em nome da tentação do controle. Todas as possibilidades que encontravam solo para nascer, na trama do filme, são cortadas na metade de sua duração, para responderem a um controle: a mão pesada do diretor que amarra todos os sentidos e os força na mesma direção, polarizando os caminhos interpretativos. Primeiro, tudo responde a uma espécie de ‘teoria da conspiração’: o protagonista e os outros personagens são apenas peões em um tabuleiro, controlados por homens maquiavélicos e poderosos, que visam algo muito terrível para a abstrata humanidade [Desculpe-me quem acredita em ‘teorias da conspiração’, mas isso é simplesmente bobo; é não ter a mínima noção da complexidade que é o mundo humano, em toda a sua tensão e interações... ninguém tem a capacidade de ‘controlar o destino’].
Ao final do filme outra triste decisão: as motivações são todas estabelecidas pela insanidade do protagonista. A simplicidade de delegar tudo à ilusão é tão grotesca quanto a simplicidade de sugar tudo para um terceiro ausente e maior. Em um momento a experiência é reduzida ao sujeito, e em outro, ao mundo – como se houvesse um, sem o outro. Só existe um eu porque tenho um mundo; é na posse mútua do sujeito com seu mundo que se desenrola a existência. Movendo essa idéia para a narrativa: Scorsese age como se negasse a seu filme a permissão de existir por si mesmo, de ser por conta própria.
A catástrofe narrativa acontece quando ele joga fora a riqueza das suas contradições e adere às respostas, a fechamentos em vez de aberturas, a saídas rápidas, limpas e sem graça como o mais genérico restaurante de esquina. Uma obra é grande porque vai desenhando a sua complexidade e armando o seu metaverso, como se armasse uma galáxia. Para além disso, ainda, ela se torna prima quando coroa o centro dessa galáxia com um buraco-negro: de tão mundo-próprio e para-si que consegue ser, gera suas próprias contradições e questões que propulsionam possibilidades de idéias para fora de sua estrutura e afetam nossa vida. É um universo que funciona como um jogo, precisando somente, para se realizar, de um intérprete/jogador. Não me entendam mal: não esperava uma obra-prima de Ilha do Medo. Mas não dá pra passar frete às ruínas de uma história interessante, aniquilada por uma mão pesada, limitadora e controladora. Mais ainda, não dá pra passar sem expor as soluções medíocres que Hollywood apresenta para sanar sua safra cada vez mais pobre dos últimos anos. Como muito se tem dito, a indústria está em crise e a sua solução é a tecnologia. Sua solução é apelar para a radicalização de sua própria fórmula: o espetáculo, o show. Ainda bem que não dependemos de Scorsese para manter o cinema interessante e fértil.
Aron Barco
http://pelosdias.wordpress.com
A Hollywood dos últimos anos invariavelmente apela para a tecnologia, ou melhor, a técnica, para angariar público. Técnica é habilidade, técnica é práxis refinada pela experiência compreendida e repensada ao ponto de se atingir a eficiência e daí abrir novas possibilidades. Com a técnica refinamos as imagens, conseguimos melhores captações audiovisuais, atingimos uma agilidade imponente, e temos o cinema 3D. Assim como um dia a mágica fascinou a sociedade européia crente no racionalismo empirista (afinal, mágica se trata exatamente da técnica na sua forma mais elegante), hoje o sublime movimento de luzes e cores em vastas possibilidades põe as platéias do cinema a babar. Assim, elas seguem crentes no mundo palmilhado e medido pela ciência.
Quanto mais recente, mais agudo é o caso. Do espetáculo de explosões de Apocalypse Now (tão atacado por Jean Baudrillard) ao espetáculo de (neon?) de Avatar, a escola cinematográfica estadunidense tem formado gerações no seu cinema-show-de-luzes onde, infelizmente, a narrativa não é a prioridade. Talvez o exemplo mais notável esteja na reprodução dessa tendência percebida nos jogos eletrônicos, cada vez mais simplórios e repetitivos, ao mesmo tempo em que mais bonitos e fotorrealistas. Não é preciso escrever um tratado sobre cinema para entrar em comum acordo que uma de suas características essenciais, principalmente olhando a sua história, é o discurso – o enredo é o esqueleto de um filme cinematográfico. Desde que se começou a narrar com filmes, todas as técnicas empregadas o foram em detrimento da narrativa; mas Hollywood hoje parece mais povoada de efeitos especiais que de enredos.
Claro que efeitos também têm história pra contar, são parte do enredo, e claro que Hollywood nunca foi a primazia da narrativa: é cultura pop, feita para agradar a todos. Só não podemos – jamais – perder de vista a crítica: podemos e queremos algo melhor. E é inegável que mesmo o melodrama hollywoodiano, duramente criticado, anda cedendo ao puro show-de-luzes; não é mais questão de roteiros ingênuos, mas da própria falta deles. É o cinema se rendendo à mudez do auto-regozijo, ou mesmo escolhendo fazer um beat-box em vez de conversar com o espectador (só pra constar: nada contra o beat-box, foi uma metáfora).
Ilha do Medo representa o meu medo de uma resposta aleijada a esse quadro: nele se percebe a tentativa de enredo envolvente, mas o que se obtém é um desastre. Apesar de a média hollywoodiana estar em queda, ainda temos alguns diretores lançando filmes que têm algo a dizer (no momento me lembro de Um Homem Sério, dos irmãos Coen); o que não é o caso aqui, por mais que Ilha do Medo não seja um caso particular – em cada nova temporada de filmes sempre aparece algum que naufraga no seu próprio lago. Ilha do Medo não se apóia na técnica, não recorre aos estratagemas fabulosos, mas ainda assim caduca como se não houvesse saída do labirinto em que os roteiristas se meteram atrás de bons enredos.
Scorsese inicia Ilha do Medo remetendo aos clássicos noir, mas a qualidade dessa introdução não resiste quando são desmanchadas as possibilidades mais interessantes, em nome da tentação do controle. Todas as possibilidades que encontravam solo para nascer, na trama do filme, são cortadas na metade de sua duração, para responderem a um controle: a mão pesada do diretor que amarra todos os sentidos e os força na mesma direção, polarizando os caminhos interpretativos. Primeiro, tudo responde a uma espécie de ‘teoria da conspiração’: o protagonista e os outros personagens são apenas peões em um tabuleiro, controlados por homens maquiavélicos e poderosos, que visam algo muito terrível para a abstrata humanidade [Desculpe-me quem acredita em ‘teorias da conspiração’, mas isso é simplesmente bobo; é não ter a mínima noção da complexidade que é o mundo humano, em toda a sua tensão e interações... ninguém tem a capacidade de ‘controlar o destino’].
Ao final do filme outra triste decisão: as motivações são todas estabelecidas pela insanidade do protagonista. A simplicidade de delegar tudo à ilusão é tão grotesca quanto a simplicidade de sugar tudo para um terceiro ausente e maior. Em um momento a experiência é reduzida ao sujeito, e em outro, ao mundo – como se houvesse um, sem o outro. Só existe um eu porque tenho um mundo; é na posse mútua do sujeito com seu mundo que se desenrola a existência. Movendo essa idéia para a narrativa: Scorsese age como se negasse a seu filme a permissão de existir por si mesmo, de ser por conta própria.
A catástrofe narrativa acontece quando ele joga fora a riqueza das suas contradições e adere às respostas, a fechamentos em vez de aberturas, a saídas rápidas, limpas e sem graça como o mais genérico restaurante de esquina. Uma obra é grande porque vai desenhando a sua complexidade e armando o seu metaverso, como se armasse uma galáxia. Para além disso, ainda, ela se torna prima quando coroa o centro dessa galáxia com um buraco-negro: de tão mundo-próprio e para-si que consegue ser, gera suas próprias contradições e questões que propulsionam possibilidades de idéias para fora de sua estrutura e afetam nossa vida. É um universo que funciona como um jogo, precisando somente, para se realizar, de um intérprete/jogador. Não me entendam mal: não esperava uma obra-prima de Ilha do Medo. Mas não dá pra passar frete às ruínas de uma história interessante, aniquilada por uma mão pesada, limitadora e controladora. Mais ainda, não dá pra passar sem expor as soluções medíocres que Hollywood apresenta para sanar sua safra cada vez mais pobre dos últimos anos. Como muito se tem dito, a indústria está em crise e a sua solução é a tecnologia. Sua solução é apelar para a radicalização de sua própria fórmula: o espetáculo, o show. Ainda bem que não dependemos de Scorsese para manter o cinema interessante e fértil.