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A crítica de cinema – e Tarantino, o bastardo

Deixar que o filme seja ele mesmo é uma das grandes dificuldades da crítica afetada pelo ritmo de produção jornalístico, que se mantém a meia distância entre a resenha e o juízo estético – ou seja, uma crítica que não é uma coisa nem a outra.

Nunca é demais notar que o cinema é uma arte industrial, e o seu aparecimento na modernidade acompanhou uma reordenação rápida e radical da experiência social e subjetiva dos indivíduos, agora concentrados nos grandes centros urbanos. A experiência com a arte não ficou isenta dessas mudanças. O cinema expõe como nenhuma outra produção da indústria cultural o novo status da fruição estética (e o seu empobrecimento), devidamente refletido no espectador ideal do modelo hegemônico.

Assim como a linguagem dominante dos filmes, o texto jornalístico também sintomatiza e impõe este real: a velocidade, a ausência de contemplação e reflexão, um espaço pequeno preenchido por ideias cada vez mais sucintas e menos profundas são características tanto dos filmes quanto dos textos escritos sobre eles, sempre que tal processo de criação e recepção da obra de arte ocorre no interior do programa moderno de socialização intensiva e ideologicamente orientada – programa que nos cerca com espantosa eficácia totalizante, posto que o seu enraizamento se origina da autoproteção contra o desvelamento das suas contradições, o que, dito de outro modo, é a explicitação do caráter hediondo da sua permanência.

Enquanto resenha, a crítica de cinema a que me refiro valoriza em demasia as informações externas à obra, que apenas indiretamente interferem no seu valor como forma de expressão. Quanto custou o filme, quanto arrecadou, quais são os boatos do set, a personalidade do diretor, as excentricidades e exigências do star system? Por sua vez, enquanto tentativa mal sucedida de juízo estético, essa mesma crítica costuma criar esquemas conceituais gerais que são aplicados a todos os filmes, com pouca ou nenhuma diferenciação. É nesse ponto que, como dizia no começo, a crítica não permite que os filmes sejam eles mesmos.

Os textos possuem um tamanho padrão, um estilo padrão, e, sobretudo, obedecem a uma agenda sufocante: toda sexta-feira tem estréia, e o crítico deve escrever sobre os filmes da semana. Se ele acompanha um festival, deve comunicar em tempo real as suas impressões sobre as obras. Desde que se assuma esse ritmo como meta do labor crítico, simplesmente não há mais tempo hábil para que o trabalho seja feito de outro modo, e a crítica se alinha por completo aos piores filmes industriais: aqueles nos quais o riso do espectador é histriônico, e não divertido; as lágrimas são condicionadoras, e não intimamente sofridas; os atores, em vez de artistas, são bonecos repartidos pelos cortes excessivos para um olho viciado em estímulos; e o esplendor do cinema, enfim, se resume ao espetáculo que rende dinheiro, e não ao espetáculo gracioso que postula um sentido sincero de comunidade humana, aliada pela capacidade de cada um dos seus integrantes de sentir, desejar e se satisfazer com a subversão alegre ou desesperadora da objetividade do mundo – a arte, em si mesma.

Mas nada é pior que a esquematização dos conceitos universalmente aplicados aos filmes. Nada é tão vilipendioso para com a possível riqueza do cinema que um texto crítico incapaz de deixar o seu objeto falar por si mesmo, o que pode destronar os conceitos que lhe seriam aplicados e exigir um reposicionamento do próprio crítico. Se, por exemplo, um crítico questiona o último filme do Tarantino por ele não ser emocionalmente complexo nem se propor a construções verossímeis de personagens, já não há mais qualquer abertura à possibilidade de que o cinema seja algo diferente daquilo que ele é, em seu significado petrificado, difundido pela indústria cultural.

Aqui, o cinema morre como arte, encarcerado nos limites mais restritivos de uma forma revestida por completo de ideologia. Diz o crítico: o filme deve emocionar, o filme deve ser verossímil; quando, na verdade, para ser verdadeiramente uma forma de arte, o filme não deve ser nada a priori, a não ser uma potencialidade indeterminada de sentidos e sensações que podem resultar em formas completamente novas, diante das quais os velhos conceitos só podem ser descartados.

Falando como filósofo, há algum tempo já não há primazia da filosofia sobre a arte – e aqui reconheço que há arte no cinema, como ensina Deleuze: os filmes são também uma forma de pensamento. Um filme é tão melhor quanto mais faz avançar os conceitos, ou seja, sendo ele uma criação por excelência, é tão melhor quanto mais participa da criação de novos conceitos. A crítica de cinema – e a crítica de arte como um todo – deve ser dialética: não há primazia em seus postulados, nem em seus objetos, o que não contradiz o fato de que o olhar do crítico deve ser embasado por fundamentos sólidos e universais, tão mais abertos quanto podem ser – o universal, afinal, também está em movimento.

O cinema é um processo imaginativo, do qual participam cineastas e críticos. Querer sobrepor critérios de juízo inabaláveis às obras de arte é uma sabotagem que, em última instância, atua contra a arte, contra o seu público e contra o homem: nesses casos, o crítico se alista como mero funcionário da indústria cultural, reproduzindo como padrão de qualidade a sensibilidade apregoada por ela – o que, em outros termos, é a própria cooptação e mortificação do pensamento.

bastardosinglorios

Sobre o filme de Tarantino, o subtítulo desse texto o denuncia: ele é o maior bastardo do seu filme; ele, sim, é um filho espúrio da cinefilia. Em breves palavras, como dito em outro post que analisa Tarantino como autor, o seu cinema sobre o cinema cria uma nova instância a partir do real, no qual as referências ao mundo vivido degeneram em um mosaico de citações internas ao próprio universo da representação.

Diante disso, é impossível recebermos criticamente qualquer filme de Tarantino, incluindo Bastardos Inglórios, quando munidos de conceitos que apetecem ortodoxamente ao cinema narrativo clássico, sem suspender a sua operacionalidade e ir ao encontro tão somente do que resta dela, assim que a sua pretensão de validade se esgota por completo.

O cinema é a matéria-prima de Tarantino, e a sua maneira particular de orquestrar as imagens e o som é conduzida por um discurso sobre a violência que deixa à mostra o substrato da cultura de massa. Em Bastardos Inglórios, Tarantino é um diretor com insuspeita consciência da sua própria obra – um autor, sem dúvida –, cujo estilo é aprimorado, amadurecido.

Coerente com o tratamento que Tarantino dedicou ao cinema, desde sempre, o clímax e desfecho de Bastardos Inglórios ocorre no interior de uma sala de cinema em chamas, onde o alto escalão do governo nazista, que assistia a um filme clássico de herói, é dizimado pelo fogo e pelos tiros de duas personagens tipicamente tarantinescas. E como começou o incêndio? Com rolos de filmes clássicos, cujo material é altamente inflamável, ao qual um projetista negro ateou fogo, atrás da tela do cinema. A imagem daquela sala em chamas sintetiza a obra de Tarantino: em seus filmes, já não há mais o espaço da representação, nem o tradicional júbilo com o herói dos filmes de guerra, cujo extrato moralizante é indispensável – e por isso os nazistas são privados de assistir ao final do seu filme auto-celebratório. Não há vitória ou derrota, nem verdade ou mentira. Há, porém, um interminável deslizar das imagens sobre si mesmas, dos gêneros sobre si mesmos, como um redemoinho que atravessa a história do cinema, atinado pelo que constitui a sua mais provável essência: o gozo indiscreto de quem observa um falso mundo, investindo nele as suas recônditas pulsões e uma boa dose de cumplicidade.

E, no final, tudo acaba em ironia e violência.

Grande filme. Grande cineasta.

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13 Comentários on “A crítica de cinema – e Tarantino, o bastardo”

  1. #1 Camarada Fundamentalista
    on Oct 17th, 2009 at 11:25 pm

    Seu texto formula uma preocupação minha, que pedia ser formalizada – o desrespeito à especificidade da obra. Como você mesmo coloca, a crítica se limita à aplicação de meia dúzia de conceitos vagos previamente utilizados, quando na verdade é o contato com a obra que deveria produzir seus próprios conceitos. Essa impregnação do objeto pela crítica sempre me pareceu indispensável e justamente o critério mais ignorado pela crítica cinematográfica periodista, que naturalmente tem funções e propostas distintas da crítica acadêmica. Mas reducionismo não precisa ser uma opção.

    Infelizmente, meu texto sobre o filme de Tarantino, que de resto não pretende formar crítica, reproduz esse mesmo monólogo de categorias padronizadas. Mas fico feliz que alguém tenha esclarecido as coisas.

    Reply

  2. #2 Rodrigo Cássio
    on Oct 19th, 2009 at 10:36 am

    Concordo: o reducionismo não precisa ser uma opção. Ainda mais quando a internet possibilita a publicação de textos mais aprofundados e viabiliza a conexão entre quem se interessa pelo cinema, para além da lógica do mercado, e procura pensar os filmes para além das categorias da crítica jornalística.
    Não acho que o seu texto sobre o Tarantino seja um exemplo de reprodução das categorias padronizadas, a não ser indiretamente, porque dialoga com o Tarantino “pop”, muito celebrado por certo público cinéfilo de hoje.
    Como você mesmo disse, a abordagem é outra. O humor do blog de vocês é muito interessante: os textos são leves e divertem. Fico contente de tê-lo aqui como leitor.
    Um abraço.

    Reply

  3. #3 João Gabriel
    on Oct 19th, 2009 at 10:13 pm

    Achei seu blog irmãozito! Tô mandando o meu aí, uma parada mais gonzo-mothafucher-esportiva! Abraço!

    Reply

  4. #4 aroncoiote
    on Oct 21st, 2009 at 10:00 am

    ainda bem que quanto mais o imediatismo espreme, saem coisas pela tangete como o jornalismo literário.

    ah, e muito excelente essa: “para ser verdadeiramente uma forma de arte, o filme não deve ser nada a priori, a não ser uma potencialidade indeterminada de sentidos e sensações que podem resultar em formas completamente novas, diante das quais os velhos conceitos só podem ser descartados.”

    ironia e violência, grandes definidores humanos.

    já viu o Código Tarantino? http://www.youtube.com/watch?v=KpZEHZww7cM

    Reply

  5. #5 Rodrigo Cássio
    on Oct 22nd, 2009 at 9:45 am

    Salve, Johnny! Muito bom te encontrar aqui na internet! Eu tentei comentar lá no seu blog, mas alguma coisa não deu certo. Vou continuar tentando. Abração!

    Reply

  6. #6 Rodrigo Cássio
    on Oct 22nd, 2009 at 9:54 am

    Aron, é isso: olhar atento ao que “sai pela tangente”.
    Código Tarantino é muito interessante. Obrigado pela dica!

    Reply

  7. #7 Marco
    on Oct 26th, 2009 at 4:54 pm

    Rodrigo, mais um belo texto!

    O Aron reproduziu um trecho com o qual concordo sem ressalvas: um filme não “tem que ser” nada, mas “pode ser” tudo.

    Também sempre penso nessa “necessidade” de ver o filme e sair disparando análises sobre ele ao final da sessão (via blog, twitter, etc). Não gosto disso. Em geral, me agrada poder remoer o filme um certo tempo.

    Mas, com a velocidade das estreias (e festivais, mostras, etc), isso tem ficado cada vez mais difícil. A quantidade de filmes à disposição é absurda. Isso me leva a pensar que, hoje, talvez seja tão importante deixar de ver filmes quanto vê-los.

    Abraço!

    Reply

  8. #8 Rodrigo Cássio
    on Oct 26th, 2009 at 5:09 pm

    Marco,
    Muito bom esse paradoxo a que você chegou: hoje é “tão importante deixar de ver filmes quanto vê-los”.
    Para o bem ou para o mal, isso parece bastante verdadeiro.
    Uma das coisas que precisam ser desconstruídas, segundo penso, é o predomínio de certa “cinefilia quantificadora”, muitas vezes refletida na crítica de cinema.
    Para ela, vale mais o número de referências acumuladas do que o cultivo do gosto ou a elaboração de critérios válidos para a análise das obras. Isso mata o cinema e o pensamento!
    Abraço!

    Reply

  9. #9 claudinei
    on Oct 28th, 2009 at 1:14 pm

    Bastardos Inglórios é um destes horrores que, não sei bem por que, passam pela crítica de cinema sem que se debrucem em cima e analisem profundamente. de fora a viôlência gratuita e desnecessária usada pelo diretor. O filme presta um deserviço ao criar mexer com a história sem gerar qualquer relfexão. Lembra-me a mania americana de criar histórias (falsas) para dar a impressão de que ganharam a gerra do Vietna.
    Me causou espanto que as cenas de violencia tenham gerado urros de prazer da plateia no cinema. Prova de que, em geral, somos identicos aos que fizeram aquelas atrocidades, sejam estes nazistas, terroristas, etc.
    O filme ao contrário do ótimo “os falsários”, não gera qualquer reflexão. Péssimo, mas com certeza vai ser um blockbuster devido nossa sede de um vingança temporã.

    Reply

  10. #10 Rodrigo Cássio
    on Oct 29th, 2009 at 8:29 pm

    Claudinei,
    Como assim “a nossa sede de vingança”? Contra quem? Os nazistas? A violência em Tarantino me parece se inscrever em um domínio diferente deste que você propõe. Ela pode até ser gratuita, mas não é absurda enquanto representação, porque evita representar. Se ela é absurda, é porque nos incomoda ao mesmo tempo em que nos convida a participar. Não por sermos vingativos, penso eu, mas por sermos condicionados por nossas pulsões, e por ter o cinema um lugar bem próprio no mundo atual (penso aqui na nossa relação intensiva com as imagens).
    Nesse sentido, as virtudes do Tarantino como diretor acabam me parecendo superiores a um suposto descompromisso com alguma acepção mais “séria” do cinema. Em todo caso, mesmo esse descompromisso é explorado pelo Tarantino de maneira criativa. Ele adere às fissuras da pós-modernidade, e se sente bem ali. É bom que alguém faça isso! Não acha?
    Saudações e volte sempre.

    Reply

  11. #11 Bastardos Inglórios: o cinema e a (re)escrita da história como jogo e como festa « (des)montagens – incinerrante.com
    on Jan 12th, 2010 at 8:49 pm

    [...] e em relação a toda a filmografia de Tarantino, como expressão simbólica e sintética de que, “em seus filmes, já não há mais o espaço da representação”, como escreveu o Rodrigo, restando apenas uma miríade de referências intertextuais, um labirinto [...]

  12. #12 Bastardos Inglórios: o cinema e a (re)escrita da história como jogo e como festa | incinerrante.com
    on Jul 17th, 2010 at 3:25 pm

    [...] e em relação a toda a filmografia de Tarantino, como expressão simbólica e sintética de que, “em seus filmes, já não há mais o espaço da representação”, como escreveu o Rodrigo, restando apenas uma miríade de referências intertextuais, um labirinto [...]

  13. #13 Bastardos Inglórios: o cinema e a (re)escrita da história como jogo e como festa | incinerrante.com in english
    on Jul 18th, 2010 at 5:45 pm

    [...] e em relação a toda a filmografia de Tarantino, como expressão simbólica e sintética de que, “em seus filmes, já não há mais o espaço da representação”, como escreveu o Rodrigo, restando apenas uma miríade de referências intertextuais, um labirinto [...]

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