Vistos e Escritos

Comentários sobre filmes, leituras e afins

Os blogs, o twitter e as formas de vida

| 13 Comments

Comecei a perceber que estudantes buscam nos textos dos blogs explicações resumidas, simplificadas, em substituição aos textos e aos livros. Algo como: para que ler o livro do professor se ele já tem um resumo pronto? A pretensão de que a rede seja o compartilhamento de conhecimentos coletivos se mostra como uma utopia infundada na medida em que os seus proponentes se negam a refletir sobre categorias modernas, oriundas do pensamento dialético, como a categoria de reificação, como se esta não mais existisse, e como se a subjetividade predominante no capitalismo cognitivo estivesse imune à forma mercantil que atribui sentido ao próprio capitalismo. O caráter contraditório está, no entanto, na constatação de que se trata de uma forma democrática de exteriorizar idéias, ou imagens, que permite a qualquer um, em algum momento, se constituir como escritor, poeta, jornalista, ou apenas diletante.

A reflexão acima é do professor de sociologia Sílvio César Camargo, no blog Experiência e Crítica. Esse trecho pertence ao último post que Camargo publicou. O Experiência e Crítica deixa de ser atualizado por motivos que o sociólogo explica no mesmo texto, e que se mostraram, para mim, muito coerentes. Segundo ele, a internet, entendida formalmente, estimula determinados hábitos e impõe limites à experiência humana, inclusive à experiência da partilha das ideias, tão comemorada pelos entusiastas da rede. Temos, na internet, um desdobramento da indústria cultural, uma sofisticação técnica que não modifica, em essência, o seu modus operandi.

Experiência. Camargo trabalha, em boa parte dos seus textos, com esse conceito que nos remete a Walter Benjamin. O blog do professor é excelente e possui um conteúdo de qualidade rara na internet. A conclusão a que ele chegou, em todo caso, é franca e bem fundamentada. Mais ainda pelo fato de que avalia o tema como alguém que escreveu um blog por quase um ano.

Quando comecei a usar o Twitter, pensei em problemas semelhantes aos que levaram Sílvio Camargo a desistir de postar. O Twitter é uma ferramenta que celebra o descartável. O olhar e o pensamento dos seus usuários são “educados” para os discursos curtos, sintéticos, objetivos. As mensagens são lançadas em uma queda livre infinita, para logo desaparecerem. Quando deixamos de pensar nos conteúdos do Twitter, e nos atemos à forma dessa rede social, dificilmente não nos assustamos com o seu poder de condicionamento. Passamos cada vez mais tempo on-line, trocando mensagens curtas. Com isso, deixamos de lado ou simplesmente abandonamos outras possibilidades da vida em comum, inclusive a de estender nossas conversas para outros domínios, mais adequados, mais profícuos. Não é difícil imaginar tudo o que perdemos ao encarcerar as nossas relações interpessoais nas redes sociais da internet.

Tudo isso foi muito bem analisado pela teoria crítica da sociedade, décadas atrás. Levar adiante essa análise é uma demanda sempre presente no estado atual da cultura, pois o capitalismo tardio se atualiza com uma velocidade incrível. Por isso, a crítica da ideologia também precisa ser atualizada. Por meio dela, passamos a indagar diretamente sobre os fenômenos midiáticos e a cooptação a que somos submetidos, em uma dinâmica que sempre nos surpreende como um corpo coletivo sem individuações consideráveis, ou seja, como uma massa refém de uma suposta “natureza” (o progresso, a tecnologia, a própria ideologia). Infelizmente, contudo, na contramão dessas atualizações necessárias na própria crítica, a maior parte da militância de esquerda, hoje, apenas instrumentaliza os meios de comunicação. Questionar o capitalismo tardio adotando as próprias estratégias de sociabilidade pelas quais ele se absolutiza em nossa experiência é algo que precisa ser posto em xeque, o tempo todo. Não basta espalhar conteúdos. Isso é algo que fazia muito sentido até o século XIX, ainda à sombra das Revoluções Industriais. Hoje, não mais.

Sílvio Camargo é brilhante ao dizer que “o caráter contraditório está, no entanto, na constatação de que se trata de uma forma democrática de exteriorizar idéias, ou imagens, que permite a qualquer um, em algum momento, se constituir como escritor, poeta, jornalista, ou apenas diletante”. A reificação sofisticada da sociedade “em rede” é o aprofundamento de uma sistematização que a indústria cultural implantou no mundo pós-teocêntrico. O fluxo das identidades é parte deste processo. A “fama” vazia das celebridades é cada vez mais uma possibilidade sorteada como loteria, como nas seleções do Big Brother da Rede Globo. Ao mesmo tempo, o culto ao “eu” que dá vazão a sites como o Orkut se efetiva como o recurso compensatório para sermos “famosos locais”, restringindo-nos a grupos que se antecipam ao próprio indivíduo, até o ponto em que este deixa de existir.

Se me refiro ao Twitter, é porque o considero, em relação aos blogs, uma evidência muito mais forte para a defesa da tese que o professor Sílvio Camargo sustenta, em seu post de despedida. Em todo caso, seja nos blogs ou no Twitter, o que se mostra evidente, também, é que não há caminho de volta – e foi com uma frase assim que Adorno descreveu, na última fase de sua vida, o contexto da sua relação com a mídia. A indústria cultural é totalizante. Pretender exteriorizar-se a ela é uma quimera, no momento civilizatório em que estamos. Não se trata apenas de uma resistência aos meios, mas ao modo pelo qual os meios nos constituem como aquilo que somos. O desafio continua sendo participar da indústria cultural e torná-la visível tal como ela é, o que implica tornar visível o constrangedor e desumano processo que nos impede de criarmos novas formas de vida.

13 Comments

  1. Pingback: Twitter Trackbacks for Os blogs, o twitter e as formas de vida | Vistos e Escritos [opsblog.org] on Topsy.com

  2. Ótimas reflexões, Rodrigo, que por sinal dialogam bastante bem com o que você mesmo falou sobre cinema no post do filme Avatar, a questão dele (Avatar) ser uma continuidade e não uma ruptura em relação a um cinema iniciado no séc. XIX.

    Quanto aos blogs e ao twitter, fiquei pensando como este último esvaziou um pouco as caixas de comentários dos blogs, do mesmo jeito que o Google Reader e o Facebook e sei lá mais quantas outras ferramentas ditas sociais com seus cliques indicando “gostei”, “RT” etc. Claro que é importante e útil disseminar informações, mas cadê a reflexão e o diálogo? A impressão que tenho é que basicamente passamos o tempo ecoando o que ouvimos, no melhor dos casos evocando experiências passadas — dos anos pré-redes sociais, menos de uma década atrás —, experiências essas que até incluem… reflexões e diálogos.

    O deleite sensorial, a experiência prazerosa imediata. Parece que são estes os principais parâmetros para avaliar o que interessa e o que não interessa, o que cairá no ostracismo ou o que se espalhará pela rede via update e submit e cuja importância será medida pelo número de citações, e de uma maneira que em nada se parece às citações acadêmicas, vale ressaltar.

    E agora chega, é hora de clicar em “submit” :-P

  3. Ricardo,

    De acordo, inteiramente. A análise da “sensorialidade” que orienta a experiência social neste momento do capitalismo é de grande importância, a meu ver. O cinema hollywoodiano depois dos anos 1970 é altamente sensorial, basta observar a importância dos efeitos especiais ou do impacto sonoro para que os filmes “funcionem”.

    A diferença entre os blogs e o twitter, com suas consequências para o debate de ideias na internet, é notável. Qual o sentido das mudanças formais que fazem avançar as redes sociais? Inclusive a dinâmica dessas mudanças é semelhante à da indústria cultural, lançando e relançando sites de relacionamento como produtos que estão ou não estão na moda, e que fazem ou não sucesso em um mercado onde o que se negocia, no fundo, é a própria identidade dos usuários.

    Na internet, poucas coisas me parecem mais sintomáticas da reificação do que uma pessoa que concebe a si mesma apenas enquanto é mediada pelas comunidades do Orkut a que pertence. Contra quem vê exagero nisso, eu chamaria a atenção para o quanto nos tornamos “dependentes” das redes sociais (e da internet como um todo) em um período histórico tão curto, dos anos 1980 pra cá.

  4. caro Rodrigo, tenho lido bastante Adorno neste último ano, graças a Said que tanto o cita em seus livros. Já encarei Minima Moralia, obra que de imediato já consta entre as melhores que já me passou pelas mãos; e, atualmente, estou no terceiro capítulo de Dialética do Esclarecimento. A música de Adorno através de MM foi tão impactante que é fácil reconhece-la em DE, em seus jogos de inversão das palavras na frase, parecendo-me que o livro é mais dele do que de Hockeimer. Em DE sinto um abranger de percepção que acaba por me elevar a alturas nas quais sinto aquele clima de selvagem coragem expresso por Niestche: uma lucidez extrema com a qual só resta ao leitor abandonar a leitura ou viver com a transformação dificílima que ela impõe. Sei que a coisa vai piorar nas páginas finais (já andei assuntando); mas de já a questão capital: o que sobra ao homem após o usufruto do pleno esclarecimento? O niilismo ou a resignação de que estamos lançados num arquétipo invencível de dominação que não permite qualquer ideia de trascendência? Para que nos serve o esclarecimento, então, apenas para apercebermos melhor do sofrimento ao qual não escapamos e que a lucidez dele só o faz mais penoso? Não resta utopias, crenças, tradições. Será que Adorno, em sua escrita propositalmente dificílima para não cair na proposta de linguagem industrial em que as nuances da palavra são abolidas, não estava à beira de uma ideia inédita de misticismo (estou sem tempo e não me vem outra palavra, mas, pf, compreendaa da melhor forma possível), ou de redenção? Em certa parte sobre o mito em Odisséia, os autores largam o rigor filosófico e engendram a poesia: não seriam os nomes risos petrificados?

  5. Pingback: Sei não… | Ágora com dazibao no meio

  6. Olá Charlles,
    Você nota bem o quanto o texto de Adorno busca coerência com a filosofia que ele defendeu. Levando adiante uma intuição de Benjamin, Adorno se distanciou da compreensão da linguagem como comunicação e a concebeu como expressão, admitindo aquilo a que chamamos vulgarmente de retórica como um elemento fundamental do labor filosófico – ainda mais quando se trata de pensar o mundo contemporâneo e suas contradições, “objeto” tortuoso e problemático por excelência. Por isso, o que se pode chamar normalmente de “rigor filosófico” ganha outra dimensão em Adorno. Penso que essa outra dimensão nos convida a tomar parte na discussão sobre o que resta ao homem no momento atual do esclarecimento. A meu ver, em aspectos essenciais, temos a continuidade daquilo que é denunciado na DE. O que fazer diante disso? Pensemos junto com Adorno.
    Seja bem vindo ao blog!

  7. Perfeito! Especialmente a passagem:

    “Questionar o capitalismo tardio adotando as próprias estratégias de sociabilidade pelas quais ele se absolutiza em nossa experiência é algo que precisa ser posto em xeque, o tempo todo”

    É isso mesmo! Não sei o quanto noçoes como industria cultural, dialética e afins servem absolutamente para uma crítica rigorosa. Mas o problema é muito bem colocado, especialmente nas plataformas em que discutimos.

  8. Catatau,
    Fiquei interessado: em que sentido você questiona o alcance crítico das noções que citou?
    Abraço!

  9. Oi Rodrigo!

    Não sei ao certo, não tenho um “plano” definido de avaliação, e inclusive me parece que os caras de Frankfurt são bons sim. Mas tem vários outros caras, nos últimos anos, batendo forte em noções como dialética, tomada de consciência, autonomização por uma espécie de reapropriação antropológica dos meios objetivos, razão substantiva x instrumental, etc.

    De repente essas críticas culminam em caras como o Deleuze, a autonomia italiana, o Toni Negri e o Hardt, etc..

  10. Catatau,

    Essa dúvida que você levanta, de fato, tem uma importância inequívoca no contexto atual. Divergências teóricas para com o legado de Frankfurt existem em grande número, inclusive nas posições de autores diretamente ligados a esse legado – Habermas é o maior exemplo.

    Penso que o debate sobre a viabilidade de uma crítica dialética da cultura contemporânea é fundamental, porque sou cada vez mais convicto de que o “abandono” de certas proposições da primeira geração de Frankfurt não se justifica. Noções como as de razão instrumental ou de indústria cultural não me parecem ter perdido o seu potencial heurístico. Antes disso, são noções que podem ser atualizadas em face das condições atuais. Os conceitos acompanham o mundo, afinal, servem para iluminá-lo.

    Bem observado, portanto. O debate pode ir longe a partir daqui!

    Abraços!

  11. Uma das discussões frankfurtianas que precisa de atualização urgente é a noção de subjetividade com a qual trabalham. Ao mesmo tempo em que Adorno e companhia estavam pensando as transformações sofridas pelos sujeitos no advento da modernidade – e, principalmente, no contexto de um sistema cujos processos culturais eram reduzidos à lógica da mercadoria – outros filósofos atacavam exatamente o status ontológico da subjetividade que os frankfurtianos queriam preservar.

    Assim, quem lê Adorno e, como eu, Marcuse, deve se perguntar afinal o que os caras entendiam por subjetividade e se essa noção sobreviveu.

    O marxismo analítico também colocou um ponto de interrogação sobre a pertinência do conceito frankfurtiano de racionalidade, juntamente com Habermas, cujo primeiro volume da Teoria da Ação Comunicativa não é outra coisa senão uma história deste conceito. Novamente, a pergunta boa aqui é: com que tipo de conceito de racionalidade trabalham os teóricos de frankfurt?

    Enfim, há muita coisa a ser discutida. A unanimidade aqui é quanto ao valor dos caras. Merecem ser lidos, sem dúvida.

  12. Olá Daniel,

    Não penso que a noção de subjetividade usada por Adorno e seus pares estava na contramão da tendência contra-ontológica que você menciona.

    Ao contrário, um texto como o da Dialética do Esclarecimento participa dessa tendência. Tanto é que a psicanálise é uma parcela importante do arcabouço teórico levantado ali. Vale lembrar, também na D.E., a crítica de Adorno e Horkheimer ao sujeito kantiano. Diante da constatação daquilo a que podemos chamar de “confiscação do esquematismo”, penso que é difícil compreender a crítica da ideologia, tal como proposta por eles, como a defesa de um sujeito de traços cartesianos, por assim dizer.

    Em todo caso, concordamos que essa é uma questão muito importante para os leitores atuais de Frankfurt.

    Habermas, por sua vez, descartou muito rapidamente a racionalidade instrumental. Sinto que as atualizações mais interessantes de Adorno não passam por Habermas. O argumento habermasiano de que Adorno caiu em contradição performativa, por exemplo, é pouco fiel à compreensão adorniana da filosofia. Eis outra questão para ser discutida hoje, sem dúvida.

    Obrigado pelas observações! Bom vê-lo aqui.

    Um abraço

  13. Pingback: uberVU - social comments

Leave a Reply

Required fields are marked *.

*