Publiquei o texto abaixo no jornal O Popular, hoje, sobre o filme Mudernage, dirigido pela goiana Marcela Borela. Realizado a partir do projeto DocTv, o documentário aborda a história das artes plásticas em Goiás, e põe em xeque o significado da “modernidade goiana”. Para quem mora em Goiânia, há duas oportunidades de assistir ao filme, essa semana: a primeira, no cinema (Cine Cultura, na Praça Cívica, segunda-feira, às 20h30); a segunda, na televisão (TBC Cultura, canal 13, quarta-feira, às 23h40).
A definição de modernidade é fonte de muitas controvérsias quando aludimos às transformações culturais dos últimos séculos. No universo das artes, a intensiva urbanização e a ascensão de uma sociedade de consumo ocasionou o perecimento de formas estéticas vinculadas a ordens sociais anteriores. A modernidade se instalou nas próprias obras de arte, na maneira como elas são fruídas e acessadas, assim como na sensibilidade dos homens que as criam e atribuem valor a elas.
Mudernage enfrenta as controvérsias desse amplo processo de transformação cultural, perguntando sobre a realização da modernidade em Goiás. Dirigido por Marcela Borela, o filme faz um inventário das artes plásticas goianas, desde as primeiras emulações que determinaram os nomes mais conhecidos da produção pioneira, até um presente em que os artistas se estabelecem por meio de adensamentos e novas experiências, tornando imprecisa a relação entre o presente e o passado (não tão distante, tampouco ausente).
O filme de Marcela Borela é tão melhor quanto mais se propõe a explorar essa imprecisão. A diretora se compromete com o seu lugar enquanto articuladora das vozes que convida para entrar no debate. Vozes que expõem dissonâncias e crises, mas também similitudes e tendências incontornáveis, identificando os passos de uma trajetória que acompanhou o crescimento de Goiânia, uma capital planejada que foi, também, um plano de modernidade.
Teríamos realizado este projeto? Em uma passagem de Mudernage, ouvimos que a definição do contemporâneo é impossível diante do vazio de significado do moderno. O que seria a cidade que se quis modernizadora, hoje? Partindo da “tradição” que mitificou a vida rural e adotou o gado como emblema, este impasse das artes reflete, assim, o impasse de toda uma forma de coletividade. É a identidade goiana, como um todo, que está problematizada no filme de Marcela Borela.
Insistindo nas perguntas mais que nas respostas, o filme garante a condição de ser ele próprio um exemplo do vazio de sentido da modernidade que investiga, chamando para si a parte que cabe ao cinema. Importante observar que não se trata de um vazio por ausência ou abandono, mas de um vazio que espera ser preenchido, constantemente. Não por acaso, em uma cena, a diretora define Mudernage como um filme-processo. O processo é a ocupação do vazio, e o vazio pode estar, inclusive, onde antes havia plenitude de sentido.
Nada condensaria isso tão bem quanto a participação da artista Fabíola Morais em Mudernage, presente entre os autores que criaram obras especialmente para o filme. Numa parede remanescente da antiga Escola de Belas Artes de Goiânia, fundada nos anos 1950, a pintora criou uma nova obra a partir de um esboço extraído de obras originárias da arte goiana. Na fusão dos pioneiros, tomados como mote de uma arte atual que ressignifica o passado em seu antigo espaço de eminência, a modernidade parece encontrar um aporte.
A tradição, aqui, é transformação. A arte é processo, assim como a cidade. Em Mudernage, os artistas goianos saem do ateliê para a intervenção dos cartazes, para a performance ou o número de rua dos palhaços, vistos em cena ao mesmo tempo em que o filme nos mostra pinturas que os representam. A modernidade avança dos quadros para as ruas, e se a criação de Fabíola Morais condensa essa passagem é porque articula os dois âmbitos de uma só vez. Mudernage tenta fazer o mesmo, como filme, no exemplo da montagem com os palhaços.
Por essa via, ao assumir o cinema como artifício, o filme recusa a transparência, ostenta a sua própria construção e incorpora a dificuldade de aproximar linguagens. A performance que o Grupo Empreza realiza na casa da diretora é questionada por um de seus integrantes: como adaptá-la à presença da câmera e ao modelo documentário? Aqui, como em outras cenas, além de um meio para acessar o passado, as perguntas são também um meio pelo qual o presente se revela irresoluto, como uma fissura onde a nova geração de artistas deve projetar os seus anseios.
Mudernage, assim, toma um partido. Ele quer ser moderno, tanto quanto quer ser goiano. Por isso, procura os significados desses termos, até trazer à tona o acirramento de uma identidade. Eis um filme que não poderia não ser goiano.
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22/02/2010 at 07:14
É engano meu ou a música utilizada no início do trailer é de um autor erudito goiano, do século XIX. Não me lembro o nome da composição, mas acho que ele pretende reproduzir os sons de sapos, à beira de uma lagoa, no anoitecer.
Se for essa a música, digo: boa pedida!
22/02/2010 at 09:53
Rodrigo,
muito bom texto.
Marcela Borela se formou em jornalismo na mesma turma que eu e já naquela época tinha uma vontade grande de produzir que, comparativamente, em mim se converteu em vontade de analisar. É uma pena que não terei oportunidade de ver o filme dela, mas, por enquanto, seu texto já basta para suprir essa falta.
Grande abraço,
Fellipe
22/02/2010 at 20:35
Olá Rainer,
Confesso que não conheço a música erudita goiana do século XIX, e não me lembro de ver os créditos dessa música no filme. Vou tentar descobrir com a Marcela; se você chegar a ter certeza, de todo modo, avise, pois é uma informação bastante útil!
Um abraço e bem vindo ao blog!
22/02/2010 at 20:43
Fellipe, obrigado.
A Marcela continua com aquela mesma vontade de produzir, e eu acompanhando você na vontade de analisar. rs
O Mudernage mostra a evolução dela como diretora. Acho que foi acertado ela lançar problemas sobre a modernidade goiana, e a partir disso escrevi o texto. Tomara que você possa assistir ao filme! (Por que não entrar em contato com ela?).
Um abração!
23/02/2010 at 11:12
Excelente texto sobre um excelente filme, Rodrigo.
Assiti “Mudernage” no Perro Loco do ano passado e, novamente, ontem à noite no lançamento no Cine Cultura. Gosto muito do filme da Marcela, de sua maneira de abordar a questão da modernidade goiana, entre o modernismo artístico e a modernização urbana. Seu texto destaca muito bem várias das questões envolvidas.
Mas acho que, em vez da performance do Grupo Empreza, me chama mais a atenção – e me parece mais interessante na polifonia de vozes que o filme orquestra – a recusa de artistas goianos contemporâneos em participar da revisitação de artistas goianos modernos. O Juliano Moraes é contundente em sua negativa, comparando a situação a uma cena imaginária que é bastante curiosa: um ritual artificialmente realizado por um índio para um antropólogo. Nessa recusa e na sua inclusão no filme, nos deparamos com a riqueza de “Mudernage”, que, entre outras coisas, constrói(-se como) um dispositivo (no sentido que Cláudia Mesquita e Consuelo Lins, entre outras pessoas, têm dado a esse termo em suas discussões sobre o documentário contemporâneo). O dispositivo de “Mudernage” se coloca em movimento no decorrer do filme, de forma exemplar, na figura de Fabíola Morais. A recusa em participar desse dispositivo assume o papel de uma dissonância na orquestração polifônica das vozes e desconstrói o filme de dentro, explicita suas peças e suas engrenagens. É por isso que concordo com você quando escreve que “ao assumir o cinema como artifício, o filme recusa a transparência, ostenta a sua própria construção e incorpora a dificuldade de aproximar linguagens”.
Como alguém que veio ainda criança para Goiânia e não chegou (ainda) a passar muito mais do que a metade de uma vida de idas e vindas aqui, vejo o filme da Marcela como uma oportunidade de pensar a questão da modernidade de uma perspectiva regional, sem deixar de lado o estranhamento necessário para compreender os dilemas nacionais e até mesmo globais (transnacionais) que marcam a experiência moderna e as formas contemporâneas de seu prolongamento, diluição, reconfiguração ou o que quer que seja que estejamos vivendo.
Um abraço!
24/02/2010 at 08:41
Marcelo,
Obrigado pelo comentário, tão enriquecedor.
Essa é realmente a interpretação do filme que me parece mais frutífera, e também a mais coerente com a visada de Marcela e as qualidades que o filme possui.
Mudernage concilia bem as diferentes vozes, de modo que o problema da continuação do “moderno” se revela tão complicado quanto o da própria suposição de uma modernidade goiana, posta em xeque desde o início.
A partir disso, como você sublinha, o filme diz respeito ao local e ao global, e, ao mesmo tempo, mostra como é impossível reduzir contextos particulares à luz de conceitos abstratos demais, como o de modernidade.
Grande abraço!
05/03/2010 at 11:01
Olá pessoas..
Primeiro peço desculpas pelo atraso deste comentário. Já havia lido os ditos e escritos de vocês, mas saí de férias depois do lançamento do Mudernage e acabei ficando distante das discussões. Agora, de volta, não posso deixar de aproveitar o espaço de interlocução, mesmo com o bonde andando.
Eu adorei o texto do Rodrigo. Outras críticas foram escritas sobre o filme em momentos anteriores mas sob minha ótica é o texto dele que melhor INTERPRETA o filme. Acho que é esse o papel da boa crítica. Rodrigo tem feito em Goiânia um papel inovador neste sentido. Não há como fortalecer uma cena cinematográfica local sem um respaldo de crítica. Todos os dias que o encontro o agradeço por assumir este papel, mesmo que esporadicamente.
Claro que eu fiquei particularmente feliz com a interpretação do Rodrigo. Ele enfatizou exatamente aquilo que, em meio à turbulência da realização, eu não perdi de vista: a necessidade mais que urgente de fortalecer as contradições relativas ao meu tema de abordagem, relacionando uma dimensão confusa do fazer fílmico. Isso, porém, na forma de uma quase convicção epistemológica, no caso do documentário contemporâneo. No mais, admitidos alguns excessos e erros de um primeiro filme autoral na minha trajetória estou feliz com o resultado deste Mudernage.
Rainer, a música a que você se refere, na verdade, são “as músicas” de Tonico do Padre, compositor do barroco pirenopolino. Todas as faixas estão sim creditadas no filme e se tratam de uma única peça, como vc bem lembrou: o “Concerto dos Sapos”, de 1902. Toda a trilha do filme compõe o cerne da antítese estética que busquei construir para a Mudernage: o aspecto tradicional, a presença do arcaico. A música do filme ou é barroca, ou é clássica ou é sertaneja. Tonico neste caso foi uma descoberta incrível do percurso de garimpagem de trilhas, descoberta que me levou até a morar em Pirenópolis, constituindo parte de novas buscas de temas de trabalho, para motivações criativas futuras.
Marcelo, obrigada por encontrar no filme o tratamento do “dispositivo”. Melhor ainda que achar a contradição dimensionada pelo Rodrigo é saber do seu reconhecimento em relação a minha maneira de entender o documentário como procedimento, método, epistemologia, acima de qualquer coisa. Cláudia Mesquita e Consuelo Lins (mais a Cláudinha, principalmente, que foi minha monitora junto com o orientador Jean-Claude Bernardet, em um dos cursos que o Programa DOC TV Brasil nos obriga a enfrentar no processo) é referência absoluta pra mim no entendimento do documentário. Não posso negar aqui minha proximidade com ela. Confesso então que você diagnosticou uma real interferência. Após o referido curso eu reescrevi todo o proejto do filme, antes de começar efetivamente as gravações. A claudinha chegou a ler e pudemos manter um ótimo diálogo.
No mais, agradeço a todos por fomentarem a discussão acerca do filme Mudernage.
Abraços
Marcela Borela
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05/03/2010 at 21:32
Valeu pelo refresco de memória, Marcela. Não tive a oportunidade de ver o filme. Espero ter como reverter a situação. Um grande abraço e sucesso!
17/03/2010 at 08:50
Marcela, Rodrigo…
Quem não viu o filme, como faz para ver?
Quero prestigiar tb!!!
17/03/2010 at 14:07
Polly, me envie um e-mail que eu te ponho em contato com a Marcela. Estou de passagem aqui no blog. Tempo curto para a internet em BH!
19/03/2010 at 00:22
Fiquei curiosa quanto ao filme, há alguma maneira de não-goianos assistirem-no?rs
25/03/2010 at 08:48
Camila, eu perguntei para a Marcela sobre isso. Há um problema de distribuição que afeta todo o cinema nacional. Com o filme dela, não é diferente. Mas há outros meios de assistir, naturalmente. Vamos aguardar uma resposta dela.
28/09/2011 at 20:49
UMA GRANDE PRESUNÇÃO