Uma aluna da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em Portugal – a Marisa Oliveira -, em nome de um grupo de estudantes do curso de Psicossociologia da Comunicação, entrou em contato comigo para uma entrevista sobre cinema e representação social, de modo que eu contribuísse para uma pesquisa em andamento. Das perguntas que respondi selecionei as três abaixo, visando reproduzi-las neste post, pois elas tocam em temas que vez ou outra – senão constantemente – aparecem por aqui: os meios de comunicação, as novas mídias (Blogs, Twitter etc), cinema e ideologia. Obrigado ao grupo de Marisa por incitar um diálogo sobre assuntos que me interessam bastante. No aguardo do trabalho pronto, deixo abaixo, por ora, algumas das provocações que assinei nessa intriga acadêmica.
1. Qual a importância dos mass media na construção da realidade social?
A importância é muito grande, e possui diferentes dimensões. A própria noção de realidade social não resiste, hoje, sem a mediação intensa dos mass media. As revoluções tecnológicas que se sucederam no século XX produziram uma forma de vida cada vez mais acelerada, fragmentada e, ao mesmo tempo, sistemática. A internet, por exemplo, já foi apropriada, há algum tempo, como item essencial para diferentes interesses envolvidos na construção de uma realidade comum: dos governos dos Estados aos chamados movimentos sociais tornou-se indispensável o tipo de relação que se cria no âmbito abstrato que um dia foi concebido como “virtual”, mas cujo poder de determinação de um real, hoje, já tornou esse nome antiquado. Importante notar que essa evolução dos mass media não tem sido neutra, e não sintomatizou as transformações grandiosas que alguns gostam de defender. Antes disso, ela se mostra inserida dentro de um conhecido plano de realização da modernidade que prima pela confirmação de certos valores em detrimento de outros.
A facilidade da comunicação não implica uma comunicação melhor. Ao mesmo tempo, persiste a concentração do poder político em grupos privilegiados, seja com a formação de novos oligopólios midiáticos, como os da internet (Google, Microsoft etc), seja pela capacidade de antigos concentradores de poder se adequarem, investindo estrategicamente nos mass media. Nesse segundo caso, é patente o que se dá com os estúdios hollywoodianos, que há mais ou menos 50 anos começaram a contornar sua crise estreitando a relação (econômica e simbólica) com mídias ascendentes, sobretudo a televisão. Nesse passo, grande parte dos produtos da cultura de massa mais recente estabelece a sua unicidade enraizando-se em mídias distintas e complementares. Um ótimo exemplo é o Harry Potter, personagem consumida tanto no cinema como na literatura ou nos videogames, para não falar em utensílios e vestimentas – e, mais que isso, uma personagem concebida para ocupar essas frentes diversas de entrada no mercado. O impacto enorme de Harry Potter, visto sob este prisma, já evidencia que o peso dos mass media continua muito grande na determinação do real.
2. Sendo os mass media um importante agente de socialização é possível o cinema formar estereótipos acerca de um país?
Sim. O debate sobre os esterótipos nacionais, produzidos pelo cinema, passa necessariamente pelo tipo de filme em que estes esterótipos tendem a aparecer. Nesse sentido, não se pode perder de vista que a relevância em se falar de estereótipos nacionais depende, antes de tudo, da maneira como o discurso da obra se refere à ideia de Nação. Os westerns de John Ford, por exemplo, são ancorados em um mito fundador da nação norte-americana, presente neste gênero como um todo, que alavanca os valores preconizados pelo Ocidente como esteios de uma desejável civilização. Para tanto, a afirmação do Nacional parte de uma negação daquilo que o impede de ser concretizado, e sabemos como isso resulta, nesses filmes, em uma visão estereotipada dos indígenas que ocupavam o Oeste mítico, sempre apartados da lei cogente de uma razão civilizatória que deve prevalecer. A dinâmica dessa estereotipia, contudo, transcende a marcação de heróis e vilões. Ela opera em aspectos mais específicos do discurso, até o ponto em que, curiosamente, o próprio uso de personagens estereotipadas se desprende da função ideológica do tipo de narrativa de que são oriundas. Um filme como El Topo, de Alejandro Jodorowsky, por exemplo, recorre a inúmeros estereótipos do western hollywoodiano, mas não pode ser tomado prontamente como um filme propagador da visão eurocêntrica do mundo, sob o risco de interpretarmos ingenuamente as suas provocações surrealistas.
No Brasil, a mesma coisa pode ser dita a respeito de um filme como O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha. Reproduzindo uma estrutura de conflitos e ambientes que instalam o western no meio do sertão brasileiro, entre jagunços e coronéis, matadores e cangaceiros, Glauber tinha em vista justamente reverter a lógica subjacente da História difundida por essa estrutura narrativa. Na introdução do filme, por exemplo, um professor pergunta a um grupo de alunos quais são as datas de vários eventos significativos para o país, como a nossa descoberta pelos portugueses ou a proclamação da República. Uma dessas perguntas surpreende: o professor quer saber a data da morte de Lampião, emblemático cangaceiro brasileiro. A importância atribuída a Lampião revela uma nuance desconhecida por quem o reduz a uma figura marginal e desordeira. Nesse passo, Glauber Rocha responde criticamente tanto ao gênero matriz, vindo dos EUA, quanto aos inúmeros filmes produzidos no “cinema clássico” do Brasil, nos anos 1940-50, que associavam a vilania estereotipada dos indígenas norte-americanos aos cangaceiros, e, por isso, reproduziam a narrativa histórica que beneficia os valores eurocêntricos. Logo, com maior exatidão, podemos dizer que o cinema produz estereótipos e se apropria deles das maneiras mais diversas, comportando-se de modo análogo ao nosso próprio imaginário – quando um filme se propõe a questionar esse imaginário, torna-se mais rico tanto em sua linguagem, ultrapassando convenções, quanto na maneira mesmo de lidar com os conflitos identitários.
3. É através dos mass media que as pessoas adquirem grande parte da informação. Isto não torna os profissionais de comunicação ainda mais responsáveis?
A responsabilidade de quem produz informação sempre foi muito grande. Sem dúvida, essa responsabilidade aumenta na medida em que as fontes de informação estão concentradas nos mass media. A complexidade funcional da sociedade de massas faz com que a maior parte daquilo que precisamos saber – por motivos mais simples ou mais complexos, do preço vigente dos alimentos às propostas de um político em campanha – seja veiculada pelos mass media. E eles se tornam tão mais essenciais quanto mais a vida moderna é urbanizada, regulada e administrada. Trata-se de uma responsabilidade que resulta, antes de tudo, da centralidade da mídia no processo global. Já no sentido de uma responsabilidade que problematiza a ética da comunicação, a discussão mais recente costuma se debruçar sobre a internet e sua facilidade de expor conteúdos anteriormente reprimidos pelos mass media, posto que os produtores e disseminadores de informações com grande alcance eram sobretudo os trabalhadores da área. Em ferramentas como um blog, qualquer pessoa pode ser jornalista, se por jornalismo entendemos o tornar público informações, análises, comentários, entrevistas, reportagens e uma série de outros textos que conectam pessoas e ideias em função de determinados interesses. Uma pergunta que surge, com isso, é: a qualidade da informação produzida por quem simplesmente se dispõe a fazê-lo – a despeito de formação acadêmica ou de vínculo com empresas de comunicação – pode ser a mesma? Pode ser melhor? Ou será pior? Hoje, a ética da comunicação costuma ser atravessada por esse problema, e um de seus saldos provisórios, no Brasil, é a recente disputa legal sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalista.
Da minha parte, penso que há expectativas duvidosas nos termos em que a discussão se dá. Por um lado, sou cético quanto ao potencial libertário das novas mídias, se o princípio norteador desse potencial é a mera possibilidade de partilhar conteúdos. No começo do século XX, Adorno e Horkheimer diziam que do telefone ao rádio passamos da condição de falantes liberais a ouvintes democratizados, isto é, de sujeitos que falavam livremente, como indivíduos, a objetos de uma programação que ditava padrões e gostos, posto que nivelada para todos os ouvintes. Vejo uma continuidade dessa lógica, hoje, ainda que a interatividade e a conversação sejam cada vez mais incentivadas pelos próprios meios – o que, de resto, é algo absolutamente sensacional de um ponto de vista teórico (tanto é que Habermas fundamenta a sua teoria ético-política na ideia de comunicação). Distante do elogio habermasiano ao consenso, penso que a ideologia não mais se dedica enfaticamente a reprimir conteúdos, porque o processo de conformação dos indivíduos ocorreu de forma tão bem sucedida que agora dispensa aquela anulação da liberdade que observamos na diferença entre o telefone e o rádio. Falar é cada vez mais importante para que o próprio indivíduo se integre ao sistema – ou seja, persiste, em nova forma, o artifício meticuloso de subjetivação sugerido na Dialética do Esclarecimento, tão mal absorvido pelas teorias da comunicação atuais, tendentes a abandonar a primeira fase da teoria crítica.
Esse “incentivo” ideológico aos falantes me parece evidente, por exemplo, no fato de que o uso político de maior frequência da internet (sites e blogs engajados, os militantes do Twitter etc) mostra um ímpeto muito maior para divulgar ou impor posições e opiniões que para debater projetos alternativos de sociedade. Temos uma reprodução virtual do modus operandi que define uma política partidária desgastada, reduzida a estratégias de marketing na medida em que os partidos perderam seu papel original, isto é, o de reunir as partes dissensuais do corpo coletivo em torno de ideias e propostas em franco debate. O que escapa a isso, hoje em dia, é casual, raro – em qualquer mídia. Por razões como essa, penso que uma ética da comunicação que contemple a responsabilidade de quem produz informações – profissionalizado ou não, diplomado ou não – passa antes pela desmistificação das novas mídias e a relativização do seu poder transformador.
03/06/2010 at 00:53
Uma surpresa agradável encontrar este assunto abordado assim. Acredito que muito do que se consome na internet não passe de um discurso histérico unilateral. Há que se discutir também desse que demanda/consome, ao lidar com isso, o que esse isso se transforma no horizonte de sua ética, trazendo uma certa implicação subjetiva no ato de consumir. Acho que esse é um outro viés à responsabilidade de quem produz.